Co.me.çar
Co.me.çar: como verbo intransitivo em 'fazer a primeira tentativa'.
Havíamos feito inúmeras reuniões. Alguns almoços ali perto de onde nos conhecemos, em um quilo da Rua da Consolação. Cafés da tarde, jantares. Cabeças pensando, pipocando de ideias, provocadas pela riqueza do texto. Estávamos esperando o "momento certo". Oportuno. Queríamos a perfeição e, no entanto, não começávamos. Dois anos discutindo um projeto como projeto. Dois anos tentando entender o que queríamos com nossas 'Sete Crianças Judias'. E em paralelo, tantas outras experiências vividas por cada um de nós...no teatro, nas escolas, na faculdade. Como saber o que queremos de um projeto se ele não está no nosso corpo? Seguíamos tentando, sem começar. Mas é, precisávamos disso: do tempo, do amadurecimento, das vivências agradáveis e penosas pelas quais passamos individualmente. Precisávamos aprender a questionar e a reconhecer o que esperamos de nossa arte, em que tipo de teatro acreditamos de fato. Para que, então, o desejo genuíno transformasse pensamento em ação.
Dois anos se passaram, e com a sensação de estar diante de um muro feito a mãos caprichosas, começamos. Finalmente. Começamos como podíamos: sala de casa, correria de produção para viabilizar primeiras leituras públicas, não esqueça a data em que se encerra o edital, aspira os pelos dos gatos para que os atores possam se alongar. Ufa! Afinal, agora temos um muro para escalar. Fizemos uma primeira leitura do texto, JUNTOS. Testamos posições diferentes ao sentar, ao falar... O que diz cada frase? O que significa cada palavra? Quais as dores contidas em cada letra? Como eu explicaria a guerra para uma criança? O que diria? Que existem homens maus que... Mas não! Não divida os homens em maus e bons. Talvez a gente pudesse dizer somente que tem gente tão focada no tesouro que se esquece de desfrutar das cores do arco-íris.
Sensação intrigante. Vazio, apaziguado pelo sentimento de dever cumprido. E esperança. Vamos em frente!
Se eu fosse criança, o que gostaria que me dissessem? O que talvez preferiria não saber?


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