Os sapatos à beira do Rio Danúbio
Entrar em um processo de criação é abrir portas no nosso cotidiano. Portas para que os assuntos dos quais estamos tratando nos surpreendam sem pedir licença, quer estejamos procurando por eles ou não.
Diretora da Crua Cia., estou desde o final de março na Europa, trabalhando em um projeto para cinema aqui em Estocolmo. No feriado do dia 1 de maio, aproveitei a oportunidade para conhecer uma das cidades sobre as quais mais tinha curiosidade: Budapeste. Passei 4 dias na cidade e uma das coisas que mais me surpreendeu ali foi a ligação que a capital da Hungria tem com sua história, especialmente a recente.
Passeando por suas ruas, é fácil encontrar pedaços das diversas culturas que já ocuparam a cidade, cuja história é uma sucessão de sobreposições. Só no século XX, por exemplo, ela foi ocupada durante os dois principais momentos da Europa - a Segunda Guerra Mundial e a formação da União Soviética. E, permeando tudo isso, a presença da cultura judaica que se conserva até hoje não só através das grandes sinagogas espalhadas pela cidade. E passo por lá no momento em que começamos a estudar a História e a Cultura do Povo Judeu como parte do processo para a montagem de Sete Crianças Judias, texto da inglesa Caryl Churchill.
Próximo à principal atração turística de Budapeste, a algumas quadras do Parlamento Húngaro, se encontra a escultura Shoes on the Danube, concebida pelo diretor de cinema Can Togay e pelo escultor Gyula Pauyer. O memorial consiste em 60 pares de sapatos de ferro dispostos ao lado do rio Danúbio, que corta a cidade de Budapeste em duas (Buda e Peste).
Quase despercebidos ao lado da monumental paisagem do rio, os sapatos estão ali para lembrar a morte dos judeus na capital hungria no final da Segunda Guerra. O holocausto húngaro, apesar de pouco comentado, aconteceu, e enviou milhares de judeus a campos de concentração alemães, inclusive Auschwitz. Em certo ponto, no final de 1944, a direção do famoso campo teve de pedir para que a Hungria interrompesse o envio de judeus para a morte porque Auschwitz não tinha condições de executar os prisioneiros com tanta rapidez assim, tamanha a quantidade de vítimas que recebia.
Os sapatos estão ali para simbolizar o genocídio ao relembrar o episódio do fuzilamento às margens do Rio Danúbio, em que os condenados eram colocados lado a lado, na beira do rio. Os carrascos pediam para que eles se despissem e tirassem seus sapatos, para logo em seguida atirarem, fazendo com que os corpos nus e descalços caíssem na água e fossem levados pela correnteza. A intenção era lavar os corpos dos judeus de toda a impureza.
Hoje, ao lado dos sapatos acumulam-se velas, fotos, objetos deixados por turistas comovidos pela lembrança. E a Hungria é atormentada por um dos maiores levantes fascistas da Europa na atualidade. Dois dos maiores partidos do país se posicionam na extrema-direita e se identificam com a ideologia fascista. A arte lembra, a História retorna.


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