Jogando e Relembrando!
Dos corredores e quintais de nossas infâncias, as passadeiras antigas e o clássico piso de caquinhos vermelhos: cada fechar de olhos como um profundo mergulho rumo aos detalhes naufragados na memória. Assim iniciamos a oficina ministrada em Março no antigo Hospital da Vila Anglo Brasileira, hoje transformado no Condomínio Cultural, "um ambiente de compartilhamento de processos, uma busca de novas saídas para continuar resistindo na cidade, no mundo, na vida". A memória nos prega peças e as histórias que escolhemos contar é que, na verdade, contam sobre a gente. O que é indício e o que é "invenção" ou ponto de vista/experiência do que vivemos? Como é ver sua história narrada por um outro, que escolhe destrinchar e aprofundar pontos diferentes dos que você faria? Porque memória também é escolha e, como simples reminiscência, quase que instintivamente preenchemos as lacunas. E então, de um espaço físico por si só carregado de vivências e lembranças, submergimos no espaço fictício de nós mesmos: a criança não tão dedicada que se vinga da colega de curso por ter feito um boneco lindo e perfeito, muito melhor que o dela; a necessidade de ir além do próprio quintal e ver "o mundo de verdade", que se resumia à praça enorme na frente de casa; os cogumelos pequenos e branquinhos do pátio da escola, que nunca se descobriu se eram ou não venenosos; a mangueira e as brincadeiras com a cachorra Bolinha; o zoológico de cerâmica colecionado de prêmios do parque de diversões de São Vicente. E daí pra tudo aquilo que um dia ouvimos e ficou em nós: como quando minha mãe me mandou ir ver se ela estava na esquina e eu fui, ou como os adultos viviam dizendo que "fulano estava acabado" mas sempre que eu dizia a mesma coisa levava bronca. Ou ainda quando ele brincava e dizia: "Vamos tirar a roupa?". A surpresa, a sensação de ter sido enganado, o sentir-se seguro, porém só. Tanta coisa que a gente já nem lembrava mais de onde vinha! As cantigas e brincadeiras de roda, do Corre Cotia ao caderno de poesia: é que minha mãe sempre foi "muito romântica"! Ob.je.to. Concreto. O que escolhemos guardar? O que decidimos carregar para falar sobre a gente? Tortas? Presentes? Pequenos quadrinhos pintados à mão? Ou uma simples borracha não desgastada pelo tempo? E em outros contextos, pelas mãos e coração de nossos parceiros dessa jornada inesgotável de duas manhãs, eis que aquilo tudo ganha vida novamente! Nova vida, vida nova resguardada pelas lembranças do passado. Porque vida nada mais é do que presença e despedida, encontro e separação.
"Quando eu não mais existir, procure-me nas flores
Eu serei o perfume daquela que você tocar.
Quando eu não mais existir, procure-me no mar
Eu serei as ondas que virão ao seu encontro para dizer que eu te amo."
(trecho de poema escrito em 29.12.1983 por Beatriz Braz, mãe da atriz Priscila Ioli, que participou do segundo dia da nossa oficina, em caderno de poesias da época de sua adolescência)
10.03.2018
17.03.2018




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